Os ponteiros do relógio já
tinham dado infinitas voltas desde a última vez que partilhei o mesmo espaço
contigo. O típico jantar de secundário é sempre a única maneira de o fazer, ainda que (seja agora realista) nunca tenha mexido uma única palhinha para poder
torná-lo mais frequente.
Passei a porta que me levava
até ti e ao resto da maltinha, livre das borboletas no estômago que sempre
denunciavam a minha fragilidade sentimental. Pela primeira vez em muito tempo,
cumprimentei-te de forma natural e, inesperadamente, lançaste-me um «Olá» gigantesco
por entre um sorriso alegre e espontâneo. Ainda que imprevisível, confesso que,
desta vez, nada disso conseguiu mexer nas minhas feridas.
Sentei-me no canto
oposto da mesa, por ser onde se concentravam os poucos lugares ainda
disponíveis. O jantar repleto de histórias pessoais de cada pessoa, da alegria do reencontro,
do reviver de momentos épicos, afastou de mim qualquer sentimento que me pudesse
deixar no impasse de viver aquele serão com a minha genuinidade. Olhei-te, sim…
mas nesses ínfimos instantes não espelhaste qualquer vivência com a pessoa que amei.
O prolongamento do jantar, diferente
do habitual, quase seguia o mesmo rumo das horas anteriores. Tentava olhar para
ti enquanto falavas, como sempre tenho o hábito de fazer com todos. E numa
fracção de segundos os nossos olhares cruzaram-se… Baixei a cabeça levemente,
sorri e continuei a conversa que mantinha com as figuras femininas que me
rodeavam. Começava a sentir-me estável e a convencer-me de que este passo que
se tem arrastado por meses e meses, em mim, estava quase superado,
independentemente da quase “não-relação” que mantemos, actualmente. Acreditava que, esta
noite, era a prova de que tudo se recompõe, mesmo que esse “tudo” leve o seu
tempo…
Mas a equipa não estava
completa. Um outro membro se juntou e, com ela, devolveu-me a apatia perante o
desenrolar daquele serão. A sua presença agonizou-me o resto da noite, pelo
facto de um simples olhar dirigido a ela me ceder a imagem de um dos
acontecimentos que mais me magoou e desiludiu até hoje (ainda que não houvessem
certezas de ser real ou não). Ao meu lado, uma voz masculina chegava ao meu
ouvido: “Mantém a calma, Liliana. És superior a isso” (A.M.)
Queria poder desabafar com
alguém… Só que, ali, só teria coragem de tomar iniciativa com uma ou outra pessoa.
Mas não as queria incomodar com coisas do meu foro psicológico, na ocasião de
reencontro com aqueles a quem há muito nos afeiçoámos. No entanto, há sempre uma
pessoa que sempre me surpreende de maneira positiva, que sempre demonstra uma
preocupação sincera para com o meu bem-estar e sempre me transmite palavras verdadeiras
e sábias (L.S.)
“Sabes
que ele já não é o teu Bordas, não sabes?
O
primeiro grande amor é sempre o primeiro! Vais ter sempre fortes recordações,
mas com o tempo tudo vai voltar ao normal. Mereces bem melhor, fofinha”
Veracidade e votos de confiança é o que mais necessito. Tenho de cair na realidade de forma sólida, mas sentir que tenho quem me acompanhe. Preciso de experimentar
coisas novas, de viver outras aventuras, de chegar a um ponto de loucura, mas com
a consciência de uma mente sã… Não quero mais viver de expectativas denegridoras
do meu verdadeiro “eu”… Estou cansada de viver de memórias porque sim, essa é a
minha realidade, o meu dia-a-dia. São as memórias que me estagnam na vida, que não
me deixam seguir, arriscar, ir a um outro lugar… Só quero andar à deriva, como
um barco que se deixa ir pela corrente… E quando chegar ao meu porto, quero
viver a certeza de que encontrei, finalmente, o meu lugar.
Obrigada a todos pela noite,
a alguns pelo apoio constante e a ti porque algo dentro de mim pede para te agradecer
(por motivo que nem eu sei)
(por motivo que nem eu sei)

O teu lugar é aquele que desejas, aquele que está espelhado no futuro, mas com um pé assente no chão. Nada é nosso neste mundo, podemos perder tudo de um momento para o outro. A única coisa que ainda vamos tendo controlo sobre ela é a nossa cabeça. Os nossos pensamentos e desejos são determinantes para que consigamos ter mais do que o que temos, indo em frente. Para que um dia tenhamos coisas, que embora não sendo nossas, nos pertencem. Estarei aqui para tudo <3
ResponderEliminarSei que já estive muito mais longe de superar esta batalha, de me superar a mim mesma. Acredito que com o tempo conseguirei ter esse auto-controlo e aí sim, chegar ao meu lugar. Até lá, prossigo este combate até conseguir assegurar a minha estabilidade. Obrigada pelas palavras e obrigada por sempre estares "presente". Tenho saudades <3
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